Brasil precisa dobrar investimento para ampliar corredores
CEO da DP World defende elevar aportes em infraestrutura de 2,2% para 4,5% do PIB e aponta necessidade de rotas marítimas mais eficientes e resilientes
O Brasil precisa mais que dobrar os investimentos em infraestrutura logística para ampliar sua participação no comércio internacional e fortalecer rotas marítimas mais eficientes com os países árabes. A avaliação foi feita pelo CEO da DP World no Brasil, Fábio Siccherino, durante o Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, realizado em São Paulo pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Segundo Siccherino, o Brasil destina atualmente cerca de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) à infraestrutura, enquanto o nível necessário para acompanhar o crescimento da economia e ampliar a inserção internacional seria de aproximadamente 4,5%.
“O Brasil investe cerca de 2,2% do PIB em infraestrutura, quando deveria aportar 4,5%. Para suportar o crescimento do Brasil e aumentar a sua participação em mercados internacionais, precisamos ter infraestrutura interna, até o porto, e corredores marítimos diretos eficientes, principalmente com os países árabes”, afirmou.
Para o executivo, o fluxo de produtos brasileiros para a região já atingiu escala suficiente para justificar rotas marítimas diretas e mais eficientes. Minerais, celulose e commodities agrícolas estão entre os principais produtos exportados pelo Brasil aos mercados árabes.
A consolidação dessas rotas, entretanto, depende de investimentos que vão além da infraestrutura portuária. Segundo Siccherino, é necessário melhorar a logística entre as áreas produtoras e os portos, além de criar condições para reduzir o custo de capital e ampliar a segurança jurídica para os investimentos.
A busca por maior eficiência logística também está relacionada às vulnerabilidades das principais rotas marítimas internacionais. Siccherino citou os Estreitos de Ormuz e Malaca como pontos de estrangulamento capazes de provocar interrupções nos fluxos globais de comércio.
Nesse cenário, empresas de comércio exterior passaram a adotar o que o executivo chama de “estratégia de cadeia dupla”. O conceito consiste em estruturar previamente uma rota logística alternativa que possa ser acionada em caso de interrupção do principal corredor.
A alternativa implica custos adicionais para exportadores e importadores, mas pode ser economicamente justificável diante dos prejuízos provocados pela paralisação completa de uma rota.
Um exemplo foi apresentado pelo CEO da MSC Saudi Arabia, Hisham Al Ansari, durante o evento. Diante das restrições no Estreito de Ormuz, a companhia estruturou uma operação denominada “mar-terra-mar” para manter o atendimento a países do Golfo afetados pelas restrições, como Catar, Bahrein e Kuwait.
A estratégia envolveu o desembarque das cargas em portos do Mar Vermelho, principalmente Jeddah, na Arábia Saudita, seguido pelo transporte rodoviário por cerca de 1,5 mil quilômetros, em grande parte dos casos até Dammam, no Golfo. A partir dali, as mercadorias seguiam novamente por via marítima até seus destinos.
A MSC também utilizou os portos de Salalah, em Omã, voltado para o Mar Arábico, e Sohar, no Golfo de Omã, além de Khorfakkan, nos Emirados Árabes Unidos. As operações combinaram os modais marítimo e terrestre para contornar as restrições de acesso ao Golfo.
Segundo Al Ansari, as diferentes configurações permitiram manter o fluxo de comércio, embora com custos superiores aos de uma operação convencional.
Apesar das dificuldades logísticas, o comércio brasileiro com os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) permaneceu em patamar historicamente elevado.
No primeiro semestre, as exportações brasileiras para o bloco somaram US$ 4,17 bilhões, recuo de 4% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Site Benews – 04/09/2026
