2026-07-06
Presidente do Sopesp defende obras para evitar gargalos no Porto de Santos

O presidente do Sopesp, Régis Prunzel, afirma que o aprofundamento do canal, o Túnel Santos-Guarujá e a terceira pista da Imigrantes são fundamentais

O estudo Santos 10+, elaborado pelo Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp) e que analisou o crescimento operacional do Porto de Santos (SP) previsto até 2035 e o impacto desse aumento na infraestrutura do complexo marítimo, traz duras conclusões. A principal delas é que os projetos em estudo para melhorar a infraestrutura de acesso do cais santista – o aprofundamento do canal de navegação para 17 metros e a construção do Túnel Santos-Guarujá e da terceira pista da Rodovia dos Imigrantes – não serão suficientes para impedir congestionamentos e filas no principal complexo marítimo do País. Os dados da pesquisa não deixam dúvida: o Porto deve movimentar 291,1 milhões de toneladas em 2035, um aumento de 56% ante os 186,4 milhões registrados em 2025. Ao mesmo tempo, os investimentos em equipamentos, acessos e instalações vão ampliar a capacidade operacional do cais santista dos atuais 250,62 milhões de toneladas anuais para 309,1 milhões de toneladas anuais, alta de 23%, deixando o complexo marítimo trabalhando próximo de seu limite. Para o presidente do Sopesp, Régis Prunzel, solucionar esse cenário demanda assegurar a realização dos projetos já previstos e adotar novas ações, como a ampliação do uso de tecnologia para ampliar a eficiência dos terminais e para melhorar a gestão dos acessos, tanto aquaviários como terrestres. Falando com exclusividade ao BE News, o executivo analisou os riscos identificados pelo Santos 10+ e detalhou o trabalho que o Sopesp tem feito, levando as conclusões da pesquisa ao poder público e ao setor privado. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Presidente, uma das principais conclusões do estudo Santos 10+, elaborado pelo Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp), é que as principais soluções consideradas atualmente para melhorar a infraestrutura de acessos ao Porto de Santos (SP) – o aprofundamento do canal de navegação para 17 metros e a construção da terceira pista da Rodovia dos Imigrantes e do Túnel Santos-Guarujá – não impedirão que, em 2035, haja congestionamentos no sistema viário do complexo marítimo ou nas rodovias que o atendem. Qual a solução para esse cenário?

Eu te diria que “cada dia com sua agonia”. Estrategicamente, para começar, a gente precisa sair da inércia e iniciar essas obras. Essas três obras precisam realmente acontecer. São gatilhos para que a gente possa atender ao nosso crescimento de movimentação. A terceira pista vai ser entregue em 2032. Imaginando que tudo vá bem, em 2032 nós vamos ter isso, mas estaremos no limite, como mostra o estudo, e talvez não cheguemos em toda essa movimentação. No canal do Porto, vamos chegar a uma profundidade de 17 metros e vamos precisar de dragagem para manter esses 17 metros. Tem um desafio grande de autorizar, de licenciar isso no órgão ambiental. Estamos discutindo agora se nós vamos ter uma concessão do canal, então ainda estamos discutindo como é que nós vamos operacionalizar. Mas precisamos aprofundar. A movimentação de cargas cresce ano a ano. A gente vem crescendo 5% ao ano. Então, ter o aprofundamento do canal, ter a terceira pista, ter o túnel são os deveres de casa que a gente precisa fazer. São as obrigações essenciais. Para mim, isso não se discute mais. Nós temos que executar isso já. E diante desse cenário, o desafio seguinte talvez não seja nos acessos ao Porto e aos terminais, mas dentro dos terminais.

A solução também passa por um aumento na capacidade de movimentação dos terminais?

Estou falando de novas tecnologias, de troca de equipamentos, maior automação, que é a próxima geração de equipamentos para movimentação de cargas, o que irá agilizar a passagem das cargas pelos terminais. Tudo está crescendo muito rápido, tudo está mudando muito rápido. E veja que, para 2035, não estamos falando de 10 anos, mas de praticamente oito anos. Então, nesse prazo, vamos ter um mix de melhora na infraestrutura (de acessos) e melhora da tecnologia. Assim, a gente vai conseguir manter o crescimento da movimentação – talvez não naquele nível que a gente está projetando, mas muito próximo desses números.

Uma das conclusões do Santos 10+ é que, até 2035, o Porto de Santos conseguirá ampliar sua capacidade operacional em cerca de 20%, mas a movimentação de cargas cresceria 50%. Mais uma vez, temos a demanda superando a oferta de infraestrutura, Nesse cenário, com mais cargas vindo e acessos insuficientes congestionados, qual seria o resultado? Alta dos custos logísticos ou, pior, uma fuga de cargas, que iriam procurar portos com custos menores?

Temos de trabalhar para evitar esse cenário radical, que teria a soma desses dois riscos. A gente tem que trabalhar numa redução de custo logístico e, assim, manter nossa competitividade. E diante de uma movimentação crescente, temos de adequar nossa infraestrutura. Aí seremos mais competitivos. Mas se não nos prepararmos e fizermos as obras que são necessárias, irá acontecer o que você está falando, que é uma fuga de cargas. O grande temor é que esses dois fatores se juntem. Para evitar esse cenário, temos de ter infraestrutura, temos de ter fluidez nas operações. Não podemos ficar aguardando maré para o navio poder entrar no porto porque o canal não tem a profundidade que deveria. O setor privado tem feito sua parte. Os terminais fizeram investimentos importantes nos últimos anos e vão continuar fazendo. Temos instalações com planos de expansão, temos novos terminais vindo. Então o setor privado está fazendo sua parte. Nosso grande desafio é a infraestrutura a cargo do poder público.

A solução para esses desafios, então, passa pela implantação de novos projetos de infraestrutura. Mesmo com o aprofundamento do canal para 17 metros, o túnel e a terceira pista da Imigrantes, já temos de começar a preparar, por exemplo, a quarta pista da Imigrantes, novos acessos ferroviários?

Eu acho que sim. Mas primeiro, eu testaria os três (projetos de infraestrutura) e acrescentaria uma quarta solução, que é a tecnologia. Com ela, eventualmente, podemos adotar novas soluções e explorar melhor a infraestrutura que teremos. Por exemplo, podemos utilizar mais as rodovias em horários com menor circulação de veículos, fazermos uma gestão mais inteligente e, assim, ampliarmos nossa capacidade operacional. Além dos investimentos em infraestrutura, temos de adotar novas tecnologias para solucionar os gargalos do Porto de Santos. 

Nas últimas semanas, o Sopesp vem apresentando os dados do Santos 10+ a associados, empresas de outros setores e, também, a autoridades dos governos Federal, Estadual e municipais. Qual a reação deles?  

A resposta tem sido bem positiva. As autoridades têm concordado com a necessidade desses investimentos. No caso das prefeituras, elas entendem a importância de se integrarem nesse cenário e que a solução desses gargalos também passa por elas, por obras de infraestrutura nos viários municipais.

E quanto às demais autoridades, como as conclusões do Santos 10+ foram recebidas?

A resposta foi positiva, exatamente como esperávamos. A reação do Governo do Estado, do Ministério de Portos e Aeroportos, da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), da Autoridade Portuária de Santos foi muito alinhada com o que tínhamos de expectativa. Agora cabe a essas autoridades pegarem os dados do Santos 10+ e integrarem a seus planos e estratégias. E isso, nós iremos acompanhar. Este é um dos nossos desafios: acompanhar como cada órgão irá trabalhar os dados do Santos 10+ e as soluções que irá implantar para solucionar os problemas apontados. Agora, temos uma agenda bem propositiva, temos um caminho crítico para seguir.

Um dos problemas ao se trabalhar com o poder público é a continuidade, especialmente em um ano eleitoral, em que podem ocorrer alterações de equipe e até mudanças de grupos políticos. Nesse sentido, as eleições deste ano podem atrasar a realização das obras e a adoção das soluções de que o Porto de Santos necessita?

Com o Santos 10+, nós temos um mapa a ser seguir, um norte. Se houver mudanças em equipe de governo ou até mesmo um novo governo, é obvio que, em janeiro, estaremos lá para conversarmos, para fazermos novas apresentações do estudo. Mas o ideal, o que temos de garantir agora é tracionar esses projetos, essas soluções, colocá-los em rito regulatório de autorização já pronto, independentemente da questão de governo. O Santos 10+ traz uma projeção do que irá ocorrer, traz um alerta sobre esses gargalos e esses riscos. E sim, neste ano temos eleições. Mas ainda temos quase quatro meses até outubro. Nesse período, vamos trabalhar para que os alertas do Santos 10+ sejam bem entendidos e incorporados os planos e às políticas públicas.

Site Benews – 06/07/2026


Voltar