Descarbonização dos portos exigirá modernização e qualificação
Estudo do MPor e UFSC aponta nove eixos para a transição energética do setor, com desafios que vão da infraestrutura à qualificação profissional
A descarbonização dos portos brasileiros exigirá uma transformação ampla, que vai além da adoção de combustíveis limpos e da eletrificação de equipamentos. Estudo apresentado nesta sexta-feira (3) pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), em parceria com o LabTrans da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta que o processo dependerá de investimentos em infraestrutura, inovação, digitalização, governança e qualificação profissional para garantir ganhos ambientais sem comprometer a competitividade logística do País.
O levantamento reúne nove eixos estratégicos para orientar a transição energética do setor aquaviário. Entre as principais medidas propostas estão a criação de hubs energéticos, a ampliação da infraestrutura elétrica para sistemas de Onshore Power Supply (OPS), a integração multimodal, o uso de tecnologias digitais e a implementação de programas contínuos de capacitação da mão de obra.
Responsável por cerca de 95% das exportações brasileiras, o transporte marítimo coloca os portos em posição estratégica diante das crescentes exigências ambientais globais. Dados do primeiro Inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE) da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) indicam uma redução de 7,68% nas emissões entre 2021 e 2023, sinalizando avanços na agenda de descarbonização. Ainda assim, apenas 19% dos portos públicos contam com inventários estruturados para monitoramento de emissões.
O estudo está organizado em nove frentes temáticas: energia e combustíveis alternativos, eletrificação, infraestrutura, eficiência operacional, governança climática, resiliência socioambiental, inovação, inventários de emissões e transição justa. A proposta é estruturar uma estratégia integrada que permita reduzir a pegada de carbono das operações portuárias e atender às novas exigências do comércio internacional.
Durante a apresentação, a coordenadora-geral de Navegação Marítima da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação do MPor, Bruna Roncel de Oliveira, destacou que a agenda ambiental está diretamente ligada à eficiência logística. “Ideia é a operação ser cada vez mais eficiente, não o porto ficar parado por muito tempo”, afirmou.
Segundo ela, o documento representa um ponto de partida para ampliar o debate sobre descarbonização no setor. Mais de 100 pessoas participaram do workshop de apresentação. A chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Portos, Marina Cavallini Bailão, reforçou que o material servirá de base para novas ações e metas. “Daqui tiraremos outras ações e outras metas. O documento já é um subsídio para os trabalhadores”, ressaltou.
Entre os principais pilares do estudo está a digitalização das operações portuárias. O uso de inteligência artificial, sensores, Internet das Coisas (IoT) e sistemas inteligentes de gestão pode reduzir filas, tempos de espera e desperdícios energéticos. Nesse contexto, ganham destaque os chamados smart ports, capazes de integrar dados operacionais e ambientais em tempo real, aumentando a produtividade e reduzindo emissões.
No campo energético, o estudo aponta a necessidade de preparar os portos para receber combustíveis alternativos e ampliar a eletrificação das operações. Entre as tendências estão a formação de hubs energéticos regionais, a expansão do fornecimento de energia elétrica para navios atracados via OPS e a integração da produção nacional de combustíveis de baixa emissão às cadeias logísticas marítimas.
O levantamento também identifica gargalos estruturais que podem dificultar esse avanço. Entre eles estão a necessidade de investimentos contínuos em dragagem, melhorias nos acessos rodoviários, ferroviários e hidroviários, além da ampliação da capacidade energética dos portos.
Outro eixo estratégico é a governança climática. O estudo sugere a incorporação de metas ambientais, indicadores ESG e mecanismos de financiamento sustentável nos planos mestres e contratos do setor, facilitando o acesso a fundos verdes e linhas de crédito voltadas à descarbonização.
Além das mudanças tecnológicas, o documento reforça a importância da qualificação e requalificação profissional. A recomendação é preparar trabalhadores, gestores e comunidades para atuar em um ambiente cada vez mais digital e orientado por metas ambientais, evitando que a transição amplie desigualdades ou exclua segmentos da cadeia produtiva.
De acordo com o estudo, a combinação de inovação, eficiência operacional, infraestrutura resiliente e capacitação profissional pode posicionar os portos brasileiros como plataformas estratégicas para novos negócios sustentáveis e para a inserção do País nas cadeias globais de transporte marítimo de baixo carbono.
Site Benews – 06/07/2026
