Porto Itapoá abre escritório na China para ampliar negócios
Representação em Xangai terá foco na prospecção de cargas, relacionamento com empresas e inteligência de mercado para fortalecer a conexão do terminal com a Ásia
O Porto Itapoá (SC), um dos principais terminais de contêineres do Brasil, vai inaugurar um escritório de representação comercial na cidade de Xangai, na China, na próxima quarta-feira, dia 26. Em um movimento inédito para uma instalação portuária brasileira, a iniciativa busca não só ampliar a movimentação de cargas chinesas pela empresa, mas “transformar a proximidade com o mercado asiático em informação e inteligência de mercado, antecipando movimentos que possam resultar em novas cargas, serviços, rotas e oportunidades de negócios”, explicou o CEO do Porto Itapoá, Ricardo Arten, em entrevista exclusiva ao BE News. Confira, a seguir, os principais trechos dessa entrevista:
Em um movimento inédito no mercado portuário brasileiro, o Porto Itapoá prepara a abertura de um escritório na China. Qual o objetivo e quais serviços serão realizados por ele?
A abertura do escritório em Xangai representa um movimento estratégico de internacionalização do Porto Itapoá. O objetivo é estar mais próximo de um dos principais centros mundiais de comércio e logística, acompanhando de forma direta os movimentos do mercado e criando novas oportunidades para o Terminal e para seus clientes. O escritório terá como principais funções a prospecção comercial, o relacionamento com clientes, armadores, tradings, operadores logísticos e empresas chinesas, além do acompanhamento de tendências de mercado e de mudanças que possam impactar as cadeias de suprimentos entre Ásia e Brasil. Mais do que uma estrutura comercial, a representação permitirá transformar a proximidade com o mercado asiático em informação e inteligência de mercado, antecipando movimentos que possam resultar em novas cargas, serviços, rotas e oportunidades de negócios.
Onde será implantado e qual será a equipe?
O escritório está localizado no Shanghai Brazil Center, no distrito de Yangpu, dentro do Changyang Campus, um importante polo de inovação e negócios de Xangai. O Porto Itapoá terá uma colaboradora dedicada à representação na China. De origem asiática, ela possui mais de 15 anos de experiência nos setores de logística e transporte marítimo, com atuação nos mercados da Ásia, América Latina e África, além de experiência com rotas transpacíficas.
Que vantagens o terminal ganha com essa representação?
A principal vantagem é ampliar a capacidade do Porto Itapoá de identificar oportunidades antes que elas se concretizem e estabelecer relações mais próximas com os diferentes elos da cadeia logística. A presença física em Xangai permitirá prospectar e atrair novas cargas para o terminal, fortalecer o relacionamento com armadores, embarcadores, tradings e operadores logísticos, acompanhar oportunidades para novas rotas e serviços marítimos, compreender mudanças na produção e na demanda asiática, identificar novos investimentos e empresas que possam gerar fluxos de importação e exportação, aumentar a competitividade do Porto Itapoá diante de outros terminais brasileiros e, ainda, antecipar tendências que possam afetar as cadeias de suprimentos. Em um ambiente internacional cada vez mais dinâmico, a capacidade de antecipação tornou-se um diferencial. Uma informação identificada na origem pode permitir que uma empresa brasileira ajuste fornecedores, estoques, embarques e estratégias comerciais antes de seus concorrentes.
E por que a primeira representação internacional será lá?
A escolha de Xangai é estratégica. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e ocupa posição central nas cadeias globais de produção, comércio e logística. Em 2024, o país asiático respondeu por 28% das exportações brasileiras e por 24% das importações, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Para o Porto Itapoá, a relevância é ainda mais evidente: no primeiro semestre de 2026, a China representou 49,4% das importações e 17,9% das exportações movimentadas pelo Terminal. Xangai também reúne uma enorme concentração de indústrias, armadores, tradings, operadores logísticos, fornecedores e empresas de tecnologia. Estar nesse ambiente permite acompanhar de perto decisões que podem produzir impactos milhares de quilômetros depois, inclusive no Brasil. Por isso, a presença em Xangai não significa apenas estar fisicamente na China, mas estar próximo de onde muitas das decisões que movimentam o comércio internacional são tomadas.
Com quais cargas conteinerizadas o escritório de Xangai irá trabalhar?
O escritório não terá uma atuação restrita a um tipo específico de carga. A proposta é trabalhar de forma ampla na identificação de oportunidades de importação e exportação que possam utilizar o Porto Itapoá. Na importação, o foco estará principalmente em cargas provenientes da Ásia que tenham como destino o Sul do Brasil e outras regiões atendidas pelo Terminal. Na exportação, a representação poderá contribuir para identificar novos compradores, setores em crescimento e oportunidades para produtos brasileiros no mercado asiático. Também será importante acompanhar novos investimentos chineses no Brasil. A instalação de uma indústria, por exemplo, pode gerar fluxos de contêineres nos dois sentidos: importação de máquinas, componentes e matérias-primas e, posteriormente, exportação de produtos acabados.
Quais os resultados esperados?
O principal resultado esperado é a geração de novas oportunidades comerciais para o Porto Itapoá: atração de cargas, fortalecimento de relacionamentos, desenvolvimento de novos serviços e identificação de potenciais parceiros e clientes. Também haverá resultados menos imediatos, mas igualmente importantes, relacionados à inteligência de mercado e à capacidade de antecipar movimentos do comércio internacional. Não se trata, portanto, de estabelecer uma meta de curto prazo isolada. A representação foi concebida como uma iniciativa de longo prazo, cujos resultados tendem a surgir à medida que os relacionamentos comerciais sejam desenvolvidos e as oportunidades identificadas na China se transformem em negócios efetivos no Brasil.
O episódio do tarifaço levou os agentes econômicos brasileiros a buscar ampliar e diversificar seus parceiros comerciais, especialmente os importadores de seus produtos. Como a iniciativa de Itapoá pode ajudar nisso?
O ambiente internacional mostrou como mudanças nas políticas comerciais podem alterar rapidamente as condições de acesso a determinados mercados. Em 2026, por exemplo, novas medidas tarifárias dos Estados Unidos passaram a alcançar parcela relevante das exportações brasileiras ao país, Nesse contexto, diversificar mercados e ampliar o número de parceiros comerciais tornou-se ainda mais relevante. O Porto Itapoá pode contribuir para esse movimento ao aproximar empresas brasileiras do mercado asiático. A representação em Xangai permitirá identificar setores em expansão, novos compradores, mudanças na demanda e oportunidades para produtos brasileiros. A diversificação não significa abandonar mercados tradicionais, mas ampliar alternativas. Quanto maior o número de mercados, clientes e rotas disponíveis, maior tende a ser a capacidade das empresas de reagir a mudanças econômicas, comerciais ou geopolíticas.
Países, traders e exportadores costumam manter representações internacionais, mas isso é mais raro com terminais e operadores portuários. Por quê? E por que essa é uma iniciativa que os terminais devem assumir?
Tradicionalmente, o terminal portuário está associado à infraestrutura e à operação física da carga. Entretanto, a logística internacional evoluiu e, hoje, a competitividade não depende apenas da capacidade de movimentar contêineres. Decisões sobre fornecedores, produção, estoques, rotas, capacidade marítima e investimentos são tomadas muito antes de uma carga chegar ao porto. Por isso, entender o que está acontecendo na origem é cada vez mais importante. Para um terminal, acompanhar esses movimentos significa deixar de atuar apenas sobre a demanda existente e passar também a compreender os fatores que podem gerar a demanda futura. A presença internacional, portanto, amplia a capacidade do terminal de participar de forma mais ativa da cadeia logística, aproximando infraestrutura, mercado e informação.
Qual o maior desafio, para Itapoá, para lançar essa representação?
O principal desafio é transformar presença física em resultados concretos. Estar em Xangai, por si só, não gera novos negócios. É necessário construir relacionamentos, compreender o mercado, identificar oportunidades e fazer com que essas informações sejam transformadas em ações no Brasil. Outro desafio é justamente acompanhar a velocidade das transformações do comércio internacional. Mudanças geopolíticas, novas rotas, alterações na produção, investimentos e comportamento dos consumidores podem modificar rapidamente os fluxos de carga. Por isso, o escritório terá papel importante na coleta, interpretação e circulação dessas informações dentro do Porto Itapoá.
O Terminal planeja abrir outras representações em outros países ou continentes? Se sim, onde? E quando?
A representação em Xangai é o primeiro passo de uma estratégia de aproximação com mercados internacionais considerados relevantes para o Porto Itapoá. Neste momento, a prioridade é consolidar a operação na China, compreender os resultados da iniciativa e aprofundar os relacionamentos estabelecidos no mercado asiático. A eventual abertura de novas representações dependerá da evolução dos negócios, da relevância de cada mercado para o Terminal e das oportunidades identificadas. O objetivo não é simplesmente ampliar o número de escritórios, mas estar presente onde essa proximidade possa gerar valor efetivo para os clientes e para o comércio exterior brasileiro.
Site Benews – 24/08/2026
