2026-05-29
Especialistas defendem virada logística com foco em ferrovias e cabotagem

Debate no Santos Export aponta excesso de dependência do modal rodoviário e cobra integração entre sistemas

A melhoria da eficiência logística no Brasil passa por uma mudança estrutural na matriz de transportes, com redução da dependência do modal rodoviário e maior uso de ferrovias e cabotagem. A avaliação é da gerente-executiva da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Danielle Bernardes, durante painel realizado no Santos Export, evento promovido nesta quinta (28) e sexta-feira (29), no Casa Grande Hotel, em Guarujá.

Segundo a executiva, o transporte rodoviário deve ser priorizado em trajetos mais curtos, especialmente na chamada “última milha”. “O modal rodoviário é fundamental até cerca de 400 quilômetros. A partir disso, o ideal é migrar para o transporte ferroviário ou a cabotagem”, afirmou.

Danielle destacou ainda que o Brasil carece de políticas públicas mais eficazes voltadas à integração dos diferentes modais. Para ela, embora haja avanços, as ações ainda não são suficientes para atender às demandas do setor. A executiva também refutou a ideia de concorrência entre os modais de transporte. “É uma falácia dizer que há disputa. Eles são complementares”, disse.

A representante da CNT também apontou uma lacuna na forma como o poder público aborda o tema. Segundo ela, o governo tende a focar em uma visão macro da infraestrutura, sem considerar plenamente os desafios operacionais enfrentados no dia a dia. “O governo tem dificuldade de enxergar a operação. Ele enxerga o macro e é bom nisso, mas é preciso incluir a participação local”, ressaltou.

O debate contou ainda com a participação da gerente de Relações Governamentais da MSC no Brasil, Fernanda Pires, da superintendente institucional de Logística da Suzano, Patrícia Lascosque, e da gerente de comunicação da Associação Brasileira dos Terminais e Recintos Alfandegados (ABTRA), Milena Castro.

Fernanda Pires chamou atenção para os desafios relacionados à infraestrutura portuária diante das transformações na frota marítima global. Segundo ela, cerca de 32% dos navios da MSC já operam com combustíveis tradicionais e alternativos, mas ainda faltam condições adequadas nos portos brasileiros para atender esse tipo de embarcação. “Esses navios precisam de infraestrutura específica para atracar e abastecer”, afirmou.

A executiva destacou ainda que, diante dessas limitações, parte da capacidade de carga acaba sendo perdida, o que impacta a eficiência logística. Ela também reforçou a importância de alinhar descarbonização e transformação digital para o desenvolvimento do setor. “Digitalização não é o mesmo que transformação digital”, pontuou.

Na mesma linha, Patrícia Lascosque defendeu a necessidade de eliminar gargalos operacionais que comprometem a fluidez do transporte marítimo. “Precisamos destravar as barreiras que mantêm nossos navios parados. Navios foram feitos para navegar”, afirmou.

Encerrando o painel, Milena Castro destacou que, apesar dos desafios, o setor vem registrando avanços em áreas como automação, digitalização e descarbonização. No entanto, ela alertou para a necessidade de ampliar o debate para temas como transição energética e geopolítica. “O mundo está em transformação e os interesses também mudam rapidamente. O caminho é o diálogo, aliado ao suporte técnico e ao desempenho do setor produtivo”, concluiu.

Site Benews – 29/05/2026


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