2026-09-01
PNL 2050 coloca integração entre modais no centro do planejamento

Para empresários do setor, a eficiência do Plano Nacional de Logística deve ser medida pela jornada completa da carga

O planejamento da infraestrutura logística brasileira começa a incorporar uma visão que vai além da expansão isolada de rodovias, ferrovias, hidrovias e portos. Com o avanço do Plano Nacional de Logística (PNL) 2050, a integração entre os diferentes modais passa a ocupar espaço central na definição dos investimentos necessários para melhorar a circulação de cargas no país.

Lançado em 12 de agosto, o PNL 2050 integra o Planejamento Integrado de Transportes (PIT) e busca projetar cenários para a matriz brasileira de transportes, considerando a evolução dos fluxos de cargas e as necessidades de infraestrutura para as próximas décadas. Entre os instrumentos utilizados na elaboração do plano estão as matrizes origem-destino, que contemplam 43 macroprodutos distribuídos em seis grupos de carga.

A proposta permite analisar não apenas o ponto de partida e o destino das mercadorias, mas também como esses fluxos podem se comportar ao longo do tempo e quais infraestruturas serão necessárias para atendê-los. Nesse contexto, a avaliação de empresas do setor é que os investimentos precisam considerar as conexões entre os diferentes modais e os pontos de transferência ao longo do percurso.

Para empresários do setor, a eficiência deve ser medida pela jornada completa da carga. Isso significa avaliar conjuntamente rodovias, hidrovias, terminais e portos, identificando onde uma conexão deficiente pode comprometer uma operação que, isoladamente, apresenta boa capacidade.

“Não faz sentido pensar que uma rodovia é eficiente apenas porque está em boas condições, ou que uma hidrovia cumpre seu papel apenas porque tem capacidade disponível. O que precisa ser analisado é como esses modais se conectam ao longo da jornada da carga. A eficiência logística acontece quando a carga consegue passar de uma etapa para outra com segurança, previsibilidade e o mínimo possível de rupturas”, afirma o diretor Administrativo-Financeiro da Combitrans, Augusto Andrade.

Planejamento integrado

A necessidade de integração ganha importância diante da composição atual da matriz de transportes brasileira. Segundo dados da Infra S.A. divulgados pelo Ministério dos Transportes, as rodovias respondem por 54% da movimentação, enquanto as ferrovias representam 27% e o segmento aquaviário, 19%.

A diversificação da matriz é uma das questões que o planejamento de longo prazo precisa considerar. Na avaliação de Andrade, entretanto, ampliar a participação de outros modais não significa simplesmente substituir o transporte rodoviário, mas estabelecer combinações mais eficientes de acordo com as características de cada operação.

Uma carga pode, por exemplo, utilizar o transporte rodoviário na etapa de coleta e distribuição e recorrer ao modal hidroviário em trechos de maior distância. Para que essa combinação funcione, porém, é necessário que os terminais, acessos e estruturas de transferência estejam preparados para receber a carga sem criar novos gargalos.

“Quando olhamos apenas para um modal, podemos resolver um gargalo e, ao mesmo tempo, criar ou manter outro logo adiante. A carga não termina sua viagem quando deixa uma rodovia ou chega a um terminal. Por isso, o planejamento precisa acompanhar o percurso inteiro e entender onde estão os pontos de conexão que podem comprometer a operação”, explica ele.

Investimentos conectados à demanda

A abordagem também pode influenciar a forma como os projetos de infraestrutura são priorizados. Em vez de avaliar apenas a capacidade individual de uma rodovia, ferrovia ou hidrovia, a lógica passa a considerar como cada empreendimento se encaixa nos fluxos existentes e futuros de mercadorias.

As matrizes origem-destino utilizadas no PNL 2050 são parte dessa estratégia ao permitir projetar a movimentação de cargas em diferentes horizontes temporais. A partir dessas informações, o planejamento pode identificar necessidades de infraestrutura e conexões entre os diferentes subsistemas de transporte.

Para o setor privado, a integração também está relacionada à previsibilidade e aos custos das operações. Uma infraestrutura de maior capacidade pode perder parte de seu potencial quando os acessos ou as etapas seguintes do percurso não acompanham a demanda.

Na avaliação de Andrade, a combinação entre projetos de curto e médio prazo e o planejamento de longo prazo pode ajudar a direcionar os recursos para os pontos em que os investimentos terão maior impacto sobre a cadeia logística.

“A combinação entre iniciativas de curto e médio prazo, como a carteira de projetos prioritários apresentada pela CNT, e instrumentos de planejamento de longo prazo, como o PNL 2050, representa uma oportunidade para o Brasil avançar na construção de uma infraestrutura mais conectada às necessidades reais dos fluxos de carga”, conclui.

Site Benews – 01/09/2026


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