2026-07-16
Seca na Amazônia faz empresas anteciparem cargas no Norte

Com risco de nova estiagem, companhias ampliam estoques, ajustam operações e preveem aumento de até 20% na demanda durante o período de vazante

A ameaça de uma nova seca na Amazônia já começa a impactar o planejamento logístico de empresas que dependem do transporte fluvial para abastecer a Região Norte. Após os eventos extremos registrados em 2023 e 2024, o setor passou a considerar a redução do nível dos rios como um fator permanente, e não mais pontual.

Como resposta, companhias têm antecipado embarques, ampliado estoques e estruturado planos de contingência antes mesmo do período mais crítico da vazante, que normalmente ocorre entre setembro e novembro.

A preocupação ganhou força após o Governo do Amazonas decretar estado de emergência climática e ambiental de forma preventiva. A decisão leva em conta projeções associadas ao fenômeno El Niño, que indicam menor volume de chuvas, queda no nível dos rios e aumento do risco de queimadas entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

Para operadores logísticos, esse cenário consolida uma mudança estrutural. A estiagem, antes tratada como evento isolado, passa a integrar a rotina de planejamento. Segundo Dagoberto Madono, diretor de Novos Negócios da Combitrans, a frequência e a intensidade das secas nos últimos anos exigem estratégias contínuas para reduzir impactos na cadeia de abastecimento.

O histórico recente reforça essa percepção. Em 2024, rios da bacia amazônica atingiram níveis mínimos recordes, enquanto cerca de 69% dos municípios da região enfrentaram algum grau de estiagem. Áreas que antes não registravam esse tipo de problema também passaram a sofrer com seca severa.

Diante desse cenário, a expectativa é de aumento na movimentação de cargas durante o período de menor navegabilidade. A Combitrans projeta crescimento de cerca de 20% entre setembro e novembro, impulsionado pela antecipação de envios e pela migração de cargas que normalmente utilizam a cabotagem.

Especializada em transporte fluvial e logística integrada na Região Norte, a empresa atua no abastecimento regional e no suporte à produção da Zona Franca de Manaus. Sua operação inclui terminais próprios em Manaus e Belém, além de balsas do tipo SW (Swimming Warehouse), que funcionam como armazéns flutuantes para ampliar a capacidade e otimizar custos.

Os impactos da seca vão além da navegação. A Zona Franca depende dos rios tanto para receber insumos industriais quanto para escoar produtos como eletroeletrônicos, motocicletas, alimentos, bebidas e medicamentos. Com a redução do nível das águas, aumentam os custos e os prazos de entrega, levando empresas a recorrer a modais mais caros, como o rodoviário e o aéreo.

Além disso, a cabotagem também enfrenta limitações em trechos onde a diminuição do calado compromete a navegação. Nesse contexto, itens essenciais, como alimentos, medicamentos e produtos de higiene, ganham prioridade nos planos de contingência para evitar desabastecimento.

Entre as principais estratégias adotadas está o envio antecipado de mercadorias e a ampliação dos estoques regionais. A utilização de centros de armazenagem próximos aos mercados consumidores também vem ganhando espaço, funcionando como hubs logísticos capazes de garantir o abastecimento mesmo com restrições no transporte fluvial.

Segundo a Combitrans, a demanda por esse tipo de solução cresceu significativamente nos últimos meses, com clientes buscando adiantar volumes e utilizar estruturas avançadas de armazenagem.

Para atender ao aumento esperado, a empresa reforçou sua operação. Duas novas balsas, com capacidade de 3,5 mil toneladas cada, devem entrar em funcionamento ainda neste mês. O investimento foi definido no início do ano, diante dos primeiros sinais de uma possível nova seca severa.

A companhia também ampliou sua infraestrutura logística. Atualmente, conta com cerca de 15 mil metros quadrados de armazenagem em Belém e 20 mil metros quadrados em Manaus. Em 2025, adquiriu ainda uma segunda área portuária em Belém, com aproximadamente 95 mil metros quadrados, onde pretende instalar um novo complexo logístico com estrutura frigorificada.

Para especialistas, a principal mudança é a incorporação do risco climático ao planejamento estratégico. Assim como ocorre em cadeias globais sujeitas a eventos extremos, como furacões ou crises geopolíticas, fatores como capacidade de estocagem, integração entre modais e previsibilidade operacional passam a ser determinantes.

A tendência é que esse modelo se fortaleça com a continuidade dos incentivos à Zona Franca de Manaus após a reforma tributária e com a perspectiva de expansão da atividade industrial na região, exigindo operações cada vez mais resilientes diante das mudanças climáticas.

Site Benews – 16/07/2026


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